A oposição formal ao modelo ocorreu no fim de maio. No ofício, os governadores que integram o Conselho de Desenvolvimento e Integração Sul (Codesul) — Ratinho Junior (PR), Jorginho Mello (SC), Eduardo Leite (RS) e Eduardo Riedel (MS) — se posicionaram contra a “Carteira de Projetos 2026” e as diretrizes federais para as ferrovias.
As principais forças econômicas regionais chancelam o documento. A lista inclui as Federações das Indústrias (Fiep, Fiesc, Fiergs e Fiems), da Agricultura (Faep, Faesc, Farsul e Famasul), das Associações Empresariais (Faciap, Facisc, Federasul e Faems) e as Organizações das Cooperativas (Ocepar, Ocesc, Ocergs e OCB/MS).
As lideranças apontam para o isolamento técnico do governo federal no início dos estudos. “Os estados registram sua inconformidade com o tratamento conferido ao processo, uma vez que a condução das definições ocorreu sem a participação efetiva dos entes federativos diretamente afetados, mantendo-os à margem das decisões estruturais”, afirma o texto enviado ao ministério.
A posição conjunta entre administrações públicas e iniciativa privada rechaçam o fatiamento e a retenção de dados por parte da empresa Infra S.A. “Soma-se a esse quadro a ausência de compartilhamento com os estados dos estudos técnicos da Malha Sul, conduzidos pela Infra S.A., circunstância que restringe o diálogo institucional e inviabiliza a análise técnica e a apresentação de contribuições qualificadas pela referida comissão”, acrescenta o documento.
Coordenador do Grupo de Trabalho de Ferrovias do Codesul, Beto Martins defende uma solução integrada para a Malha Sul. “Uma ferrovia fatiada não trará o resultado de que precisamos. Os quatro estados do Codesul são rigorosamente contra esse modelo”, enfatiza ele.
Martins ressalta que, embora a Malha Sul não passe pelo Mato Grosso do Sul, o estado depende da eficiência dessa ferrovia para escoar sua produção. “Pedimos que o governo federal nos ouça”, reivindica.
No Rio Grande do Sul, a preocupação se concentra na competitividade da produção industrial. O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), Cláudio Bier, pontua que a logística ferroviária exerce papel decisivo para a economia gaúcha.
“Somos um estado distante dos grandes centros consumidores nacionais e com vocação histórica para o comércio exterior. Para as 52 mil indústrias gaúchas, uma logística ágil e com custos previsíveis é fator determinante para a sobrevivência e o crescimento no mercado global”, afirma.
No Paraná, as críticas recaem sobre o traçado previsto para a ferrovia. O projeto da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), com vigência até 2057, descarta a construção de contornos ferroviários em áreas densamente povoadas e mantém o transporte de cargas no centro de Curitiba e de municípios vizinhos.
“O trem de carga corta a cidade ao meio, fecha passagens e atrasa a vida de quem trabalha, estuda e precisa se deslocar todos os dias. É uma situação que afeta a mobilidade, a segurança e a qualidade de vida dos curitibanos”, afirma o prefeito Eduardo Pimentel (PSD).
A Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) defende que o novo contrato estabeleça metas claras de desempenho e mecanismos que assegurem a transferência dos ganhos de eficiência para os usuários do sistema. A entidade também aponta para a necessidade de uma futura unificação da operação da Ferroeste com a nova concessão da malha Paraná-Santa Catarina.
O Codesul, em conjunto com o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), publicou edital para contratar uma consultoria especializada que vai elaborar o estudo de viabilidade técnica, econômica e operacional de uma ferrovia integrada na região Sul do país.
A iniciativa busca embasar tecnicamente a posição dos estados na discussão sobre o novo modelo de concessão da Malha Sul. Segundo o coordenador do GT de ferrovias, o objetivo é qualificar a discussão com base técnica. “Precisamos de subsídios para sustentar a posição dos estados que são contrários ao fatiamento da malha”, afirma Martins.
A consultoria será escolhida por critério técnico e de preço, com abertura das propostas prevista para 17 de agosto. O estudo deverá analisar o relatório da Infra S.A. e apresentar alternativas para uma rede ferroviária integrada, com foco em eficiência logística, competitividade regional e fortalecimento da infraestrutura dos quatro estados.
Paraná
Santa Catarina
Rio Grande do Sul
Apesar do volume de recursos previsto e da estrutura financeira apresentada pela União, o modelo continua alvo de questionamentos jurídicos e institucionais. O Ministério Público Federal (MPF) também enviou ofício ao Ministério dos Transportes com questionamentos sobre o formato do novo contrato da Malha Sul, a menos de um ano do término do vínculo com a Rumo Logística.
O MPF adverte que a fragmentação da malha ameaça a integração do sistema, compromete a interoperabilidade entre as operadoras e rompe a lógica do transporte ferroviário na região Sul.
“A integralidade da malha é requisito técnico e econômico que necessariamente precisa ser observado, pois licitar a Malha Sul de forma desintegrada é dar prioridade a soluções regionais de curto prazo, comprometendo a capacidade da maior ferrovia do país”, aponta o MPF.
Enquanto estados e entidades empresariais apresentam críticas e sugestões ao modelo, a ANTT mantém em andamento o processo de consulta pública para definir os parâmetros da nova concessão. A discussão ocorre em meio ao atraso do cronograma da concessão, que já desloca o leilão da ferrovia para 2027.
De acordo com a ANTT, a consulta pública foi aberta em 15 de junho e a sociedade tem até 10 de agosto de 2026 para enviar sugestões sobre os estudos de viabilidade técnica, econômica e socioambiental por meio do portal da agência.
“A infraestrutura precisa funcionar na prática e gerar resultado percebido pelo usuário. A audiência pública é o momento em que a sociedade contribui para que esse projeto chegue ao leilão com o melhor desenho possível”, diz o diretor-geral da ANTT, Guilherme Theo Sampaio. O cronograma da agência estabelece quatro audiências presenciais para debater o tema:
O plano da União distribui os 4,2 mil quilômetros de trilhos da Malha Sul — hoje sob concessão da Rumo, com contrato vigente até o início de 2027 — em três eixos, em certame único:
A estruturação financeira estipula R$ 14,4 bilhões em investimentos privados (Capex) e R$ 38,6 bilhões em custos operacionais (Opex) ao longo de 30 anos. Desse total, R$ 3 bilhões serão destinados à recuperação dos trilhos danificados pelos eventos climáticos no Rio Grande do Sul.
O modelo também prevê investimentos cruzados. O Corredor Paraná-Santa Catarina deverá destinar R$ 1,47 bilhão ao Corredor Rio Grande e R$ 3,46 bilhões ao Corredor Mercosul.
Fonte: Gazeta do Povo

