O que falta para a restauração da igreja de 250 anos construída com conchas e óleo de baleia

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A obra está orçada em R$ 6 milhões, mas ossadas encontradas no interior e no entorno da igreja exigem um tempo maior de estudos e coletas, antes do início dos trabalhos da restauração, de acordo com a secretaria de Cultura e Turismo de Guaratuba.

“O restauro da igrejinha de Nossa Senhora do Bom Sucesso é fundamental para a preservação da memória coletiva, da identidade cultural e da história de nossa comunidade, funcionando como uma ponte física entre o passado e o presente”, afirma a historiadora Rocio Bevervanso.

O projeto de restauro foi elaborado pela empresa ArquiBrasil, contratada pelo Iphan com recursos de emenda parlamentar. A proposta prevê intervenções estruturais e ações de conservação com o objetivo de garantir a integridade desse patrimônio histórico.

A restauração resulta do diálogo entre representantes do Iphan, da paróquia, sociedade civil e poder público. O grupo definiu como prioridade a recuperação da cobertura do templo. A paróquia avalia contratar essa etapa com recursos de uma emenda da Câmara Municipal, mas ainda não confirma prazo para início.

A equipe técnica do Iphan orientou a comunidade a ampliar a busca por recursos. O grupo pode inscrever o projeto no Programa Nacional de Apoio à Cultura e no Programa Estadual de Fomento e Incentivo à Cultura do Paraná. Esses mecanismos permitem apoio de empresas e entidades culturais.

A igreja ocupa a Praça Alexandre Mafra. A construção começou em 1768 e recebeu bênção em 28 de abril de 1771, pelo padre Bento Gonçalves Cordeiro. No dia seguinte, foi celebrada a primeira missa, de acordo com a Coordenação de Patrimônio Cultural do Paraná.

A comunidade construiu a igreja com projeto do coronel Afonso Botelho, pioneiro da cidade. Os dados da Coordenação de Patrimônio Cultural do Paraná descrevem a edificação como arquitetura religiosa colonial e fachada simples de alvenaria, padrão das igrejas litorâneas da época.

O relatório do Patrimônio Cultural também aponta que a estrutura foi erguida com pedras, conchas, areia e óleo de baleia. Parte dos materiais veio da Ilha do Mel, durante obras da Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres. O templo abriga a imagem de Nossa Senhora do Bom Sucesso, padroeira da cidade. A peça é esculpida em madeira policromada.

O Iphan registrou o tombamento em 1938 no Livro do Tombo de Belas Artes. O Paraná reconheceu o bem em 1972. A paróquia local administra o espaço e utiliza o templo de forma complementar à igreja contruída posteriormente, sobretudo em celebrações.

De acordo com Bevervanso, a edificação passou por 10 momentos de intervenções: em 1931, 1934, 1940, 1982, 1987, 1993, 1997, 2004, 2014 e 2017 conforme registro na Coordenação do Patrimônio Cultural do Estado do Paraná.

“O restauro do patrimônio engloba aspectos de resgate identitário, sendo a igrejinha o marco inicial ou o centro histórico da cidade. O restauro é manter viva a história local, valorizando a cultura e a arquitetura da mesma”, afirma.

No trabalho de restauração em 2014, trabalhadores encontraram ossadas sob o assoalho da igreja. A investigação aponta que os restos mortais podem pertencer a um dos casais fundadores de Guaratuba, os Mirando Coutinho. Os ossos foram realocados em uma nova urna e posicionados no mesmo local.

Segundo a Secretaria de Cultura e Turismo de Guaratuba, durante cerca de 80 anos — entre a fundação de Guaratuba, em 1771, e por volta de 1850 — a cidade não tinha cemitério. Nesse período, os moradores eram enterrados na própria igreja.

“Os mais pobres, negros e indígenas ficavam no entorno externo do templo. Quem tinha condições financeiras pagava por sepultamento dentro da nave, na área onde hoje ficam os bancos dos fiéis. Já aqueles com mais recursos eram enterrados sob o altar, em um espaço considerado mais nobre”, explica Marcos Fedato, diretor de Cultura e Turismo de Guaratuba.

No atual projeto de restauro da Igreja Matriz Nossa Senhora do Bom Sucesso, técnicos realizaram estudos de solo e identificaram diversos pontos com sepultamentos. A equipe aprofundou a análise ao remover partes do piso de madeira na nave e encontrou esqueletos no local.

“O trabalho reforça o reconhecimento do templo não apenas como patrimônio histórico, mas também como sítio arqueológico, o que amplia a importância da igreja para a memória da cidade”, completa Fedato.

Fonte: Gazeta do Povo

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