A fazenda brasileira onde são formados cavalos militares enviados até para o exterior

7 Min Read

No local funciona a Coudelaria e Campo de Instrução de Rincão, que concentra o nascimento e a criação dos equinos utilizados pelo Exército brasileiro. A palavra coudelaria deriva do termo “coudel”, usado em Portugal para designar o capitão de cavalaria. Diferente de haras, termo usado para propriedades privadas, a coudelaria é associada à criação de equinos militares ou de propriedade estatal.

“É muito amplo o empenho militar do cavalo, eles fazem parte do arsenal de guerra do exército. Os animais ganham destaque nos cerimoniais, mas também atuam no combate militar. Em muitas regiões não é possível fazer a patrulha patrimonial a pé ou com veículo, então nesses casos os cavalos são usados”, conta o diretor da coudelaria, o coronel Leandro Sicorra Wilemberg.

A coudelaria entrega ao Exército cerca de 150 cavalos por ano, prontos para uso militar. O planejamento da produção começa cinco anos antes da entrega dos animais.

No primeiro ano, a administração define o planejamento financeiro que custeia a criação. No segundo ano ocorre o emprenhamento das éguas. Os potros nascem 11 meses após a inseminação. Após três anos de criação, os cavalos passam por doma e treinamento.

A equipe técnica avalia linhagem genética e desempenho físico antes de definir o destino de cada animal. Em 2025, a coudelaria entregou 170 cavalos ao Exército. O volume representa, em média, um animal domado e pronto para uso a cada dois dias.

Entre as características desejadas em um cavalo militar estão pelagem uniforme, dorso forte e proporcional, pescoço alongado, membros fortes e bem aprumados e boa capacidade cardiorrespiratória. Os animais também precisam demonstrar aptidão desportiva e capacidade para patrulhamento ostensivo.

“Esses animais são patrimônio do governo. A produção em média custa R$ 7 mil. Não realizamos venda, apenas doação para os órgãos que solicitam. Mas temos animais com genética de grandes campeões“, afirma Wilemberg.

No Brasil, os cavalos militares cumprem diferentes funções. Parte dos animais participa de atividades cerimoniais nos três regimentos de guarda do Exército em Brasília, conhecidos como Dragões da Independência. Unidades militares no Rio de Janeiro e em Porto Alegre também utilizam os equinos.

Outra parcela atua no patrulhamento de campos de instrução e áreas militares. Os animais atendem à Escola de Equitação do Exército, responsável pela formação de oficiais na prática equestre e pelo incentivo ao hipismo brasileiro.

A Força Aérea Brasileira, por sua vez, utiliza cavalos da coudelaria em atividades de patrulhamento. Polícias militares de diversos estados solicitam equinos para policiamento ostensivo e para unidades de choque.

O criatório mantém ainda intercâmbios com Forças Armadas de países da América Latina, com troca de animais e material genético. “Dentro do possível a gente consegue alinhar o desporto e a atividade militar. Temos bons resultados em campeonatos internacionais”, destaca o coronel Wilemberg.

A coudelaria mantém diferentes raças de cavalos com características voltadas ao uso militar. Entre elas estão:

De acordo com a seção técnica da coudelaria, o BH apresenta forte aptidão para equitação. O principal destaque do plantel de Rincão é o cavalo brasileiro de hipismo. A propriedade militar mantém mais de 800 exemplares da raça e lidera a criação no país.

Já o cavalo crioulo atende com frequência às demandas de polícias militares para patrulhamento ostensivo. O bretão, por sua vez, exerce função estratégica na reprodução.

As éguas bretãs atuam como receptoras de embriões de outras raças. A técnica permite o desenvolvimento genético de diferentes linhagens. A coudelaria de Rincão figura entre os criatórios pioneiros do Brasil nessa prática e mantém posição de referência na América Latina, enviando animais para a Argentina e o Paraguai.

“Nós procuramos extrair de cada animal, independente da raça, o melhor resultado. Claro que alguns animais podem oferecer mais, temos casos de exemplares que ficaram na ativa por 30 anos. Outros, por razões individuais de saúde ou acidentes, podem ficar tempo menor, 15, 20 anos. Mas nosso trabalho é buscar desenvolver cada um para desempenhar tanto o desporto quanto o uso militar”, afirma o tenente Lucas Melantonio, chefe da seção técnica da coudelaria.

De acordo com os registros históricos da Coudelaria e Campo de Instrução de Rincão, a criação de cavalos para uso militar no Brasil começou no século XVII, no período colonial, em Pernambuco. No Rio Grande do Sul, a primeira fazenda militar surgiu em 1737 com a Estância Real de Bojuru.

No século XVIII, a área atual da coudelaria integrou a Estância de São Gabriel, da Companhia de Jesus. Em 1843, o Estado incorporou as terras e as arrendou a fazendeiros. O território retornou ao Ministério da Guerra em 1891. Em 1922, o Rincão de São Gabriel tornou-se oficialmente a Coudelaria de Rincão.

Ao longo do século XX, o Exército manteve várias propriedades de criação. Em 1950, o país possuía nove coudelarias: Rincão (RS), Saycan (RS), Avelar (RJ), Campos (RJ), Pouso Alegre (MG), Monte Belo (MG), Tindiquera (PR), Campo Grande (MS) e Campinas (SP).

A mecanização das Forças Armadas reduziu a necessidade de cavalos. No início da Segunda Guerra Mundial, em 1939 e 1940, o Exército possuía 22.810 equinos. Hoje, o efetivo soma 2.181 animais.

Em 1975, o Exército extinguiu as coudelarias em atividade, inclusive a de Rincão, e transferiu os plantéis para Campinas. Em 1987, o Ministério do Exército decidiu fechar a unidade paulista e recriar a coudelaria no Rio Grande do Sul, devido à maior área disponível e à pressão da expansão urbana em Campinas. Desde janeiro de 1988, Rincão funciona como a única coudelaria do Exército Brasileiro.

Fonte: Gazeta do Povo

Share This Article