O preço da descoordenação: Planalto, Congresso e a erosão da previsibilidade fiscal
O cenário político nacional se desenha sob o signo da tensão e da incerteza, com um governo federal que se vê encurralado por suas próprias contradições e uma dinâmica de poder no Congresso Nacional que exige um custo cada vez mais alto pela governabilidade. Nos bastidores, a leitura é unânime: a pauta fiscal, outrora a âncora de um mínimo de credibilidade, oscila perigosamente, testando os limites da paciência do mercado e a capacidade de articulação do Executivo. A narrativa de responsabilidade fiscal, tão defendida pela equipe econômica, é constantemente minada por movimentos internos e pressões externas, revelando um cálculo estratégico de alto risco para o futuro do país.
A falência fiscal e o racha ideológico
A confissão tácita do Planalto de que a meta de superávit zero para 2024 é inatingível não foi uma surpresa para os observadores mais atentos, mas sim a confirmação de um roteiro anunciado. O arcabouço fiscal, prometido como baluarte da previsibilidade econômica, nasce fragilizado por uma base de receitas otimista demais e uma despesa que a inércia política insiste em elevar. Nesse contexto, a crítica aberta da presidente do PT, Gleisi Hoffmann, sobre o arcabouço “não estar de pé” e o risco de austeridade revela não apenas uma fissura ideológica profunda, mas a incapacidade do governo de unificar sua própria base em torno de um projeto econômico coerente. O ministro Fernando Haddad, por sua vez, trava uma batalha solitária contra o relógio e contra os ventos populistas que sopram de dentro do próprio partido, em uma tentativa desesperada de evitar uma flexibilização ainda maior que comprometeria de vez a pouca credibilidade fiscal restante.
O Congresso: Parceiro ou algoz da governabilidade?
A relação do governo federal com o Congresso Nacional segue a lógica do “toma lá, dá cá” levada ao extremo. Se, por um lado, o presidente da Câmara, Arthur Lira, sinaliza que a relação “caminha para um bom termo”, por outro, impõe condições claras, revelando o preço salgado da governabilidade. Lira, com sua destreza política, capitaliza sobre a fragilidade do Planalto para assegurar mais espaço e recursos, transformando cada votação em uma negociação de alto nível. A articulação política do Executivo, muitas vezes reativa, tenta conter as “pautas-bomba” que emergem do Legislativo, mas a própria necessidade de ceder fragiliza o poder de barganha e engessa a agenda governamental. A crítica do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, à MP do PIS/Cofins, mesmo que sem confronto direto, é mais um indício da autonomia do Congresso e de sua capacidade de balizar, e por vezes desidratar, as medidas do Executivo em áreas cruciais.
O STF e o intrincado equilíbrio entre Poderes
Neste xadrez de poder, o Supremo Tribunal Federal atua como um árbitro por vezes silencioso, por vezes intervencionista, cujas decisões têm impacto direto nas contas públicas e no equilíbrio entre Poderes. A notícia de que o presidente Lula pediu a um ministro da Corte o adiamento da análise de um caso com potencial de impactar as contas da União é um movimento que merece escrutínio. Revela não apenas a preocupação do Planalto com a saúde fiscal, mas também a intrincada rede de influências e a busca por acomodação entre Executivo e Judiciário. O STF, ao lidar com temas de repercussão econômica e social, se vê constantemente na mira das expectativas e pressões dos demais Poderes, sendo o guardião final das instituições democráticas, mas também um ator com poder de desestabilizar os arranjos políticos e fiscais. A dependência do Planalto de tais articulações indica a ausência de um planejamento fiscal robusto, que não precise recorrer à “benevolência” do Judiciário.
Pressões internas e a bússola ideológica
A tentativa do Planalto de conter as críticas de Gleisi Hoffmann não é apenas um episódio isolado, mas um sintoma da luta interna pela definição da bússola ideológica do governo. Entre o pragmatismo econômico, personificado por Haddad, e o viés mais intervencionista e social do PT histórico, o governo busca um equilíbrio que parece cada vez mais inatingível. Essa tensão interna gera ruídos, descredibiliza discursos e dificulta a responsabilidade fiscal, enfraquecendo a capacidade do Executivo de projetar uma imagem de coesão e rumo claro. Os movimentos dos ministros da Casa Civil, Rui Costa, nesse contexto, são cruciais para a articulação política, mas também evidenciam a dificuldade de harmonizar as diferentes facções e interesses dentro da própria base de apoio, um desafio que transcende a mera gestão e adentra o campo da estratégia política.
O longo alcance de 2026: Cada passo uma pré-campanha
Todos os movimentos observados na política atual, da queda de braço fiscal às negociações no Congresso e às pressões internas, têm um pano de fundo que transcende a gestão do presente: as eleições de 2026. A atuação de Arthur Lira, a postura de Rodrigo Pacheco e as movimentações dentro do Planalto já são lidas sob a ótica da próxima disputa eleitoral. O enfraquecimento da agenda fiscal do governo, por exemplo, pode abrir caminho para candidaturas de oposição que se apresentem como defensoras da austeridade e da previsibilidade. A cada aceno, a cada concessão ou embate, os atores políticos buscam posicionar suas bases para o futuro, construindo narrativas e capitalizando desgastes. Essa antecipação da corrida eleitoral, por um lado, estimula a disputa por poder; por outro, pode comprometer decisões impopulares, mas necessárias, minando o foco na gestão e na estabilidade institucional.
O caminho tortuoso da governabilidade
A atual conjuntura expõe um Planalto que caminha sobre um fio-fino, em busca de governabilidade, mas com uma agenda fiscal que escorrega entre os dedos e um Congresso que dita o ritmo das concessões. A pressão por mais gastos, a ineficiência na articulação política e a ausência de uma base ideológica consolidada são fatores que, somados, indicam riscos institucionais consideráveis. A incapacidade de firmar um compromisso crível com a responsabilidade fiscal e o permanente desgaste com o Legislativo podem levar a um cenário de paralisia, onde o equilíbrio entre Poderes é constantemente testado e a previsibilidade econômica torna-se uma miragem. Os próximos meses serão cruciais para determinar se o governo federal conseguirá reverter essa espiral ou se o custo da descoordenação se mostrará alto demais para a estabilidade do país.
Fonte: Coluna de opinião – Notícia SC

