E, no entanto, esses meus amigos não param de brigar.
Sem poder fazer muita coisa para apaziguar os amigos, fico aqui com o celular na mão, vendo perdigotos retóricos de “canalha!” e “mau caráter!” voando por todos os lados e pensando apenas que não, meus amigos, ninguém é canalha ou mau caráter nessa história, vocês estão loucos, parem! Por favor, parem!
Aliás, se meus amigos parassem de brigar por um instante, notariam que, por trás desses xingamentos, desse desprezo mútuo e desse pressuposto de que o outro está mal-intencionado, há apenas uma discordância pontual e, no grande esquema das coisas, insignificante. E bota insignificante nisso.
Parem com essa briga idiota. Porque ninguém é burro, ninguém é otário, ninguém é menor do que o outro. Ou talvez os dois e mais eu e você que está me lendo sejamos. E de que importa isso? Estamos todos aqui, na labuta, tentando compreender o país e o mundo, lidando com problemas pessoais ao mesmo tempo em que enfrentamos o que quer que enfrentemos. Somos apenas homens imperfeitos perseguindo sonhos diversos, por caminhos diferentes. Cada qual carregando a sua cruz particular.
Falo desses dois amigos porque é um caso concreto, que está aí, em exibição numa timeline próxima de você. Mas são incontáveis as amizades perdidas para as discordâncias políticas. Uma tolice típica do nosso tempo, e ainda assim uma tolice. Porque vou insistir: somos todos minúsculos e finitos. Por mais que tenhamos milhares de seguidores nos vendo, ouvindo e lendo, e por mais que os demoninhos estejam se divertindo à beça com nossas brigas.
Sim, demoninhos e demoniões. Afinal, é assim que age o inimigo & sua tropa infernal: provocando a cizânia, destruindo pontes, impedindo a colaboração frutífera entre os homens de bem e reduzindo o coração solidário deles a um órgão que pulsa no ritmo do eu eu eu eu eu eu. Falo, evidentemente, do verdadeiro inimigo, não daquele que você acha que é. Do inimigo para toda a Eternidade. Daquele que sussurra em nossos ouvidos: “Vai lá, xinga o outro de canalha. Esfrega a sua verdade na cara dele. Mostre ao mundo que você está com a razão, que você sabe mais”.
E eis que, enquanto eu escrevia esta crônica, outro amigo entrou na briga. E outro e outro, e agora as foices cortam a noite escura demais. Tenho vontade de jogar o celular na parede. E penso que os dois, os quatro, os oito, os dezesseis, os trinta e dois… não estariam brigando assim se estivessem cara a cara, discordando entre gargalhadas e brindes, na mesa do Dante.
É, o Chico tem razão. O que falta aos meus dois amigos e a todo esse povo que briga e briga e briga, meu Deus, como brigam!, é a cultura do boteco. Enquanto o bolinho de carne não chega, pois, sirvamo-nos e façamos um brinde a ela, a amizade. A amizade que tolera no outro os defeitos que esperamos que sejam tolerados na gente também.
Ah, e eu sei que este texto não servirá para apaziguar os amigos. Porque são dois teimosos e orgulhosos. Mas quem não é? De qualquer forma, está escrito – com a melhor das intenções e com uma esperançazinha. Vai que. Saideira? Não, tá muito cedo ainda. Garçom, vê mais uma e aproveita e traz também aquele lambarizinho bem fritinho. Brigado.
Paulo Polzonoff Jr. é jornalista, crítico literário, escritor e tradutor. Publicou, entre outros livros, “Manuel Bandeira – A Vida Toda Que Poderia Ter Sido e Foi”, “O Homem que Matou Luiz Inácio” e “Desculpe & Outros Textos que Ninguém Vai Ler”. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.
Fonte: Gazeta do Povo

