Os dois ministros do STF protagonizaram na tarde de quarta-feira (4) uma das cenas mais… Que palavra posso usar aqui e que já não tenha sido usada à exaustão ainda? Deploráveis, abomináveis, detestáveis, pornográficas, vergonhosas, escandalosas, ignóbeis, deprimentes?
Não! Acho que tem que ser algo mais visceral. Algo que dialogue com essa ânsia de vômito que sinto. Se é que a Constituição ainda me garante o direito de sentir. Algo que tenha o mesmo gosto de fel.
…uma das cenas mais nojentas a que tive o desprazer de assistir no plenário da ███████ em que se transformou a instituição atualmente presidida por Edson Fachin, mas controlada por Alexandre de Moraes. Um homem que já morreu por dentro. Não é possível!
Num diálogo em que expôs toda a degradação de seus valores morais e, por tabela, os de toda a magistratura, Alexandre de Moraes reclamou. Reclamou que quer ganhar mais e quer ganhar sem ser incomodado por essa gentinha que somos nós. Reclamou que quer ser ainda mais rico e mais poderoso. E deixou claro que se recusa a ser contido por um codigozinho de ética mequetrefe.
Em outras palavras, Alexandre de Moraes confessou assim, des-pu-do-ra-da-men-te, que só é ministro do STF para satisfazer suas necessidades pessoais de dinheiro e poder. E quem criticar isso está agindo de má-fé. Um absurdo apoiado por Dias Toffoli. Aquele.
Mas não foi só isso. Como alguém que mede o mundo por sua régua torta, Moraes aproveitou para atribuir essas suas necessidades mesquinhas a toda a magistratura. Como se todos os juízes fossem uns pulhas que ocupam os tribunais apenas para engordar a conta bancária.
Claro que não são. Não são, mas parecem. E se parecem é porque Alexandre de Moraes assim os mostra. Porque é assim que Alexandre de Moraes os vê. E não sou eu que estou dizendo, não! Não adianta brigar comigo. Foi o próprio ministro quem disse, para todo mundo ouvir.
Por causa dele, Alexandre de Moraes, é assim que os magistrados são vistos pela sociedade: como uns parasitas. O que não são. Já disse que não são! Agora me responda: é justo com os ministros vocacionados? (Se é que eles existem mesmo).
A pergunta que nos resta fazer é esta: os magistrados que foram descritos por Alexandre de Moraes como pessoas para as quais a magistratura é apenas um meio de se ganhar (ainda mais) dinheiro e acumular (ainda mais) poder vão ficar quietos?
Quer dizer que vai ficar por isso mesmo, Fachin? Que Alexandre de Moraes tem razão quando mede o mundo jurídico por essa métrica que é qualquer coisa, menos virtuosa?
(E pensar que, há alguns anos, o ex-ministro Marco Aurélio Mello foi enfático ao dizer que não existem semideuses a ocupar a cadeira de juiz. Ahã).
Será que, no fundo, ou nem tão no fundo assim, todo juiz é apenas um empreendedor ou político frustrado, e não está nem aí para essa tal de justiça – como, aliás, me alertam há anos os cínicos? Espero que não. Rezo para que não. Por favor, me digam (e me provem) que não.
Por isso é que digo e repito, mesmo que não me leiam, mesmo que revirem os olhinhos e mesmo que alguns fiquem boquiabertos com minha ingenuidade intencional ou idealismo residual: enquanto ficarmos apenas passando Merthiolatezinho nas pústulas fétidas na pele do sistema, a doença de fundo (a ausência de homens virtuosos ocupando cargos de poder) vai continuar se espalhando pelo corpo.
E uma hora isso vai nos matar. Nem que seja de cansaço.
Ou impedimos a degradação total dos valores morais, fomentando uma cultura voltada para as virtudes, e não para o dinheiro, dinheiro, dinheiro, ou seguiremos assim, revoltados e empapando rolos e mais rolos de gaze no pus desse cancro supremo. Ou master, sei lá.
E se você acha que esta crônica está panfletária demais é só porque você não está sentindo o mesmo nojo que eu. E que bom! Quem sabe assim você consegue digerir o café da manhã. Porque o meu não desceu.
Enquanto isso, Alexandre de Moraes dorme. Não exatamente tranquilo, mas dorme. E amanhã ele acordará se sentindo ainda mais poderoso, ainda mais rico e ainda mais convencido de que textos como este são pura má-fé. Coisa de invejoso, talvez. Quando não um atentado ao Estado democrático de direito por ele personificado.
Ca… Deixa para lá. Não vale a pena.
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Paulo Polzonoff Jr. é jornalista, crítico literário, escritor e tradutor. Publicou, entre outros livros, “Manuel Bandeira – A Vida Toda Que Poderia Ter Sido e Foi”, “O Homem que Matou Luiz Inácio” e “Desculpe & Outros Textos que Ninguém Vai Ler”. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.
Fonte: Gazeta do Povo

