A nova estratégia de defesa dos EUA expõe a falta de planejamento do Brasil

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Em conjunto, os dois documentos revelam uma coerência rara no histórico recente da política estratégica americana e expressam uma inflexão profunda da grande estratégia nacional, de viés acentuadamente realista, marcada pela aceitação explícita de limites ao poder, pela hierarquização rigorosa de interesses e pelo abandono da lógica de gestão liberal da ordem internacional e das ambições universalistas que caracterizaram o período pós-Guerra Fria. Não se trata de retórica circunstancial, mas do fechamento de um ciclo histórico iniciado nos anos 1990.

Enquanto a NSS opera no plano político-estratégico, projetando a visão de mundo do governo Trump e redefinindo interesses vitais, hierarquias regionais e percepções de ameaça, a NDS cumpre a função clássica de uma grande estratégia militar: alinhar meios coercitivos, capacidades materiais e posturas operacionais a esses fins políticos.

Em termos clássicos, no sentido formulado por autores como Colin Gray e Hal Brands, a NDS funciona como ponte entre objetivos políticos e o uso organizado da força, transformando abstrações estratégicas em escolhas concretas, inclusive no que diz respeito a riscos assumidos e compromissos abandonados.

A NSS afirma que o mundo ingressou em uma era de competição estrutural entre grandes potências, marcada pela instrumentalização da economia, pela fragmentação das cadeias produtivas, pela politização da tecnologia e pela revalorização da geografia estratégica. A NDS parte exatamente desse diagnóstico – e o leva às últimas consequências do planejamento militar. Enquanto a NSS define quais os interesses estratégicos, a NDS explicita onde, como e com que meios os EUA estão dispostos a empregar força para preservar ou alcançar esses interesses.

Uma das mudanças mais profundas, e talvez menos compreendidas, da NDS 2026 é a centralidade absoluta atribuída à defesa do território americano e do Hemisfério Ocidental. Essa prioridade já estava claramente formulada na NSS, mas a NDS a operacionaliza de forma inédita, deslocando o eixo do planejamento militar dos EUA da projeção global contínua para a proteção do núcleo estratégico.

Trata-se de uma ruptura histórica. Durante décadas, a defesa americana foi estruturada a partir da premissa de que ameaças deveriam ser enfrentadas longe do território nacional, por meio de presença avançada, alianças extensivas e intervenções periféricas. A NDS 2026 inverte essa lógica: o território continental, o Caribe, o Atlântico Ocidental, o Ártico e as rotas críticas do hemisfério passam a ser tratados como espaço vital, não como retaguarda segura.

Mais do que apenas militar, essa mudança é conceitual. Ela reforça a convicção – já presente na NSS – de que a proximidade geográfica voltou a importar decisivamente e de que as ameaças contemporâneas operam em zonas cinzentas, onde fronteiras entre segurança interna e externa se dissolvem, tanto pela atuação de potências extra-hemisféricas quanto pelo emprego de expedientes de guerra híbrida e pela convergência entre ameaças estatais e não estatais. A NDS, dessa forma, integra combate ao narcotráfico, problemas de fronteiras, defesa aérea, cibernética e dissuasão estratégica em um mesmo quadro analítico e operacional, revertendo um pilar do pensamento estratégico americano desde o pós-Guerra Fria, que partia da premissa implícita de que as fronteiras terrestres dos EUA eram uma questão estratégica que já fora equacionada e cujo resguardo correspondia ao aparato policial e de patrulhamento interno, de competências tanto federal quanto estaduais. No mesmo ensejo, o combate ao narcotráfico, que só passou a figurar no temário de preocupações federais no governo de Richard Nixon (1969-1974, durante o qual foi criada a Administração de Repressão às Drogas – DEA) e se tornou uma prioridade securitária na presidência de Ronald Reagan (1981-89, no contexto da iniciativa Guerra às Drogas), foi, até o início do segundo mandato do presidente Trump, tratado como assunto essencialmente policial (em oposição a uma abordagem de política externa).

É nesse ponto que o tratamento do crime organizado transnacional adquire centralidade estratégica. A NSS e a NDS evidenciam que o narcotráfico, as economias ilícitas e as redes criminosas transnacionais deixaram de ser problemas policiais periféricos e passaram a ser vetores diretos de instabilidade hemisférica. Para Washington, essas organizações operam hoje como estruturas paraestatais: controlam territórios, capturam instituições, infiltram-se em cadeias logísticas, dominam portos e rotas marítimas, lavam recursos em escala global e financiam degradação político-institucional.

O pressuposto implícito é inequívoco: Estados incapazes de controlar seus territórios, fronteiras, fluxos ilícitos e infraestruturas críticas tornam-se riscos sistêmicos para a estabilidade regional, independentemente de sua retórica diplomática. O hemisfério, nessa leitura, não é neutro, e os EUA não aceitarão sua transformação em espaço de disputa estratégica por atores externos – nem sua degradação político-institucional por atores domésticos – sem reação direta. A estabilidade regional deixa de ser entendida como bem público abstrato e passa a ser tratada como ativo estratégico.

Essa lógica se projeta de forma particularmente sensível sobre o Brasil. O avanço acelerado da criminalidade organizada em território brasileiro – com facções operando em escala transnacional, controlando áreas fronteiriças, corredores logísticos, portos e cadeias ilícitas, aparelhando o sistema político e se infiltrando no ecossistema financeiro – expõe uma insuficiência estrutural de meios militares, policiais, institucionais e normativos para enfrentar a ameaça. Do ponto de vista da NSS e da NDS, o problema brasileiro não é apenas criminal, mas político e estratégico.

O país apresenta lacunas evidentes na vigilância de fronteiras, no controle do espaço marítimo do Atlântico Sul, na integração entre Forças Armadas, agências policiais e inteligência, e na atualização do marco legal para enfrentar organizações criminosas que operam como redes híbridas – simultaneamente econômicas, armadas e políticas. A leitura americana é pragmática: onde o Estado é fraco, outros atores ocupam o espaço; e onde esses atores controlam rotas, portos, fluxos financeiros e territórios, cria-se uma vulnerabilidade regional que inevitavelmente entra no cálculo estratégico de Washington.

A resposta brasileira, contudo, permanece fragmentada, reativa e conceitualmente ultrapassada. O governo insiste em tratar o narcotráfico como questão policial isolada, enquanto a NSS e a NDS o enquadram como ameaça multidimensional, que exige coordenação entre defesa, inteligência, política externa, regulação financeira, controle territorial e capacidade dissuasória. Essa assimetria de diagnóstico aprofunda a vulnerabilidade brasileira e reduz sua credibilidade como ator regional.

A relação entre a NDS e a NSS torna-se igualmente evidente na forma como a China é tratada. A NSS define Pequim como o principal competidor estratégico de longo prazo, mas rejeita a noção de ameaça existencial ou de confronto inevitável. A NDS traduz esse equilíbrio delicado por meio da adoção de uma doutrina de dissuasão por negação (denial defense), em contraste com a dissuasão expansiva baseada na superioridade global incontestável que marcou décadas anteriores.

A lógica da denial defense é fundamental para compreender a nova postura americana. Diferentemente da dissuasão por punição – que busca desencorajar o adversário prometendo retaliações devastadoras –, a dissuasão por negação visa tornar a vitória do oponente improvável, excessivamente custosa ou politicamente inviável. Trata-se menos de ameaçar destruir o inimigo e mais de impedir que ele alcance seus objetivos estratégicos. Na prática, isso implica, para além de custos financeiros de longo prazo reduzidos, menor dependência de promessas políticas maximalistas e maior ênfase em capacidades defensivas distribuídas, resiliência logística, dispersão de forças, negação de acesso e contenção regional.

Comparativamente, enquanto a NSS trabalha com a noção de competição sistêmica – sobretudo econômica e tecnológica –, a NDS reduz essa abstração a problemas militares concretos: impedir a China de alcançar superioridade regional decisiva no Indo-Pacífico, negar-lhe liberdade de ação militar e preservar o equilíbrio estratégico sem escaladas automáticas ou compromissos irreversíveis.

Nesse contexto, o silêncio quase completo sobre Taiwan, longe de ser omissão acidental, é revelador. Ele sugere uma mudança de tom: menos declarações políticas maximalistas e mais foco em capacidades reais. A NDS parte da premissa de que o excesso de compromissos retóricos pode gerar riscos estratégicos desnecessários, algo que a NSS já havia sinalizado ao adotar linguagem mais prudente e menos ideológica. Não se trata de desengajamento estratégico dos Estados Unidos da região, e sim da modificação de um padrão ativo, que deixa de ser ostensivo e declaratório e demonstra capacidade por meio da execução de ações em outras áreas, que Washington tenciona sejam entendidas por Pequim como conjunto de meios que a China não tem, pelo menos no curto e médio prazos, como contra-arrestar.

Outro ponto de convergência central entre NSS e NDS é a redefinição do papel dos aliados. A NSS afirma que alianças continuam importantes, mas deixam de ser fins em si mesmas. A NDS traduz isso em exigências operacionais: aliados devem assumir responsabilidades regionais proporcionais, reduzir dependência direta dos EUA e desenvolver capacidades próprias de dissuasão. 

Aqui, o contraste com estratégias anteriores é marcante. A NDS pressupõe que os EUA não mais carregarão o custo integral da segurança coletiva, especialmente em teatros onde aliados possuem massa econômica, tecnológica e demográfica suficiente para liderar. Europa e Coreia do Sul são tratadas não como protegidas, mas como polos regionais que devem absorver riscos. O documento sepulta oitenta anos de garantias securitárias sem ou com reduzidíssimas contrapartidas materiais para seus principais beneficiários.

O viés implícito é igualmente claro: Washington aceita o risco político de frustração aliada em troca de liberdade estratégica. A NDS assume que credibilidade não decorre apenas de presença permanente, mas da capacidade de escolher onde, quando e por que engajar.

Por fim, a NDS operacionaliza um dos pilares mais relevantes da NSS, a inseparabilidade entre poder econômico e poder militar, traduzida na elevação da Base Industrial de Defesa ao patamar de prioridade estratégica. Não se trata apenas de eficiência logística, mas de uma leitura estrutural: a globalização produtiva corroeu a capacidade americana de sustentar conflitos prolongados, sobretudo por meio do alongamento excessivo de cadeias produtivas que incidem sobre a indústria de defesa. Os Estados Unidos estão doravante dispostos a sacrifícios parciais de eficiência logística em benefício de resiliência sistêmica.

A comparação entre NSS e NDS mostra convergência fundamental: ambas rejeitam a ideia de interdependência como garantia de estabilidade. A NDS assume que cadeias globais são vulnerabilidades estratégicas e que a autonomia industrial é condição para dissuasão crível. Essa visão tem implicações diretas para países integrados às cadeias americanas, inclusive no hemisfério sul.

É nesse ponto que as implicações para a América Latina se tornam particularmente mais agudas. A NSS recoloca o hemisfério no centro do interesse estratégico americano. Infraestrutura, energia, portos, telecomunicações, minerais críticos e rotas marítimas passam a ser tratados como ativos de segurança nacional, conforme analisei em artigo publicado nesta Gazeta em 21 de janeiro último.

Para o Brasil, a mensagem é inequívoca. Em um ambiente no qual os EUA operam por alinhamentos seletivos, pressão econômica e demonstração de força, a ambiguidade deixa de ser proteção e passa a ser vulnerabilidade. A NDS pressupõe que países relevantes do hemisfério terão de escolher graus de alinhamento funcional, sobretudo em setores sensíveis.

A ausência de uma grande estratégia brasileira – que integre defesa, indústria, base produtiva tecnologia, comércio exterior, economia e política externa – torna o país objeto, e não sujeito, dessa reorganização hemisférica. O Brasil é grande demais para ser ignorado, mas, sem estratégia, torna-se previsível, pressionável e estruturalmente vulnerável.

No mundo que a NDS e a NSS explicitam – hierárquico, coercitivo e seletivo – a ausência de uma grande estratégia revela perigosa fraqueza estrutural, em contexto na qual o problema não é apenas o atabalhoado lulismo diplomático, embora ele seja sua expressão mais visível e ruidosa. Trata-se da incapacidade mais ampla do atual governo de conceber qualquer forma de planejamento estratégico nacional.

 Lula e seus assessores – profissionais do improviso permanente, cuja inépcia se traveste de convicção moral – são intelectualmente despreparados para pensar sobre a natureza e as dimensões de conflito e poder, sobre desenvolvimento e futuro em termos de escolhas duras, trade-offs e hierarquia de interesses. A política externa lulopetista reflete essa falha mais profunda: confunde projeção internacional com ativismo retórico, autonomia com ambiguidade calculada e presença simbólica em fóruns multilaterais esvaziados com liderança.

 A NDS americana, ao explicitar prioridades, limites e instrumentos de coerção, expõe por contraste o vazio estratégico brasileiro: um Estado que reage, improvisa e se acomoda, mas não dirige. Não se trata apenas de erro de orientação ideológica, mas de falência de método: sem grande estratégia, não há política industrial consistente, não há defesa nacional crível, não há inserção internacional capaz de sustentar desenvolvimento. 

Um projeto nacional dessa natureza exige algo que o atual governo já há muito demonstrou fartamente não possuir – disposição para pensar o Brasil como potência intermediária em um mundo de poder, e não como pseudoautor moral em um sistema que já não recompensa autocongratulação travestida de boas intenções, que constitui o cerne da fracassada diplomacia multilateral lulopetista desde o primeiro mandato do presidente (2003-2007). 

A construção de uma grande estratégia dificilmente ocorrerá sob um governo prisioneiro de automatismos ideológicos, visto que o governo Lula explicitamente abdicou de pensar estrategicamente e, ao fazê-lo, aceita como destino viver subordinado às escolhas alheias.

Dessa forma, essa formulação pressupõe uma ruptura intelectual e política que só um futuro governo de orientação conservadora, mais realista e estrategicamente disciplinada, parece capaz de oferecer.

O país precisa, com urgência, de uma virada estratégica conservadora: um governo que compreenda que soberania não se proclama, se constrói; que desenvolvimento não se improvisa, se planeja; e que política externa não é palco de autocongratulação moral, mas instrumento de poder. Sem essa ruptura, o Brasil seguirá condenado a viver dentro da estratégia dos outros, o que, como a história repetidamente demonstra, raramente ocorre em condições favoráveis.

Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior na University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa.

Fonte: Gazeta do Povo

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