M iro Arcângelo Gonçalves de Jesus, conhecido como Miro Louco, é apontado pelas autoridades como uma das principais lideranças do Comando Vermelho (CV) em Mato Grosso. Preso na Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná, ele seria beneficiado por uma suposta decisão judicial falsificada para permitir sua transferência antecipada para Cuiabá.
O caso é investigado pela Polícia Civil de Mato Grosso, que deflagrou, na quarta-feira (28), a Operação Reescrita. Três advogados são suspeitos de envolvimento na produção e utilização do documento.
Um dos investigados, Felipe Augusto Dorileo de Rezende, negou ter conhecimento de que a decisão seria falsa.
“Se eu soubesse que isso se tratava de um documento falso, eu apresentaria?”, questionou o advogado em vídeo divulgado após a operação.
Miro Louco é identificado em investigações policiais como uma das principais chefias do Comando Vermelho em Mato Grosso. Relatórios anteriores o apontam como vice-presidente da organização criminosa no estado.
Segundo informações divulgadas pelo g1, ele acumula 17 condenações judiciais, que somam aproximadamente 93 anos de prisão.
Entre os crimes pelos quais foi condenado está o assassinato de Alexandre Emanuel de Jesus, conhecido como Pato, morto aos 19 anos, em outubro de 2015. A condenação por esse homicídio ocorreu em 2024.
Atualmente, Miro permanece em uma unidade federal de segurança máxima no Paraná. A suposta fraude investigada pela Polícia Civil poderia facilitar seu retorno ao sistema penitenciário de Mato Grosso antes do prazo determinado pela Justiça.
Como a suposta falsificação foi descoberta?
A investigação começou após a identificação de um documento que aparentava ser uma decisão judicial autorizando medidas relacionadas à transferência do preso.
Em junho de 2025, foi apresentado um pedido para que Miro deixasse a Penitenciária Federal de Catanduvas e fosse encaminhado à Penitenciária Central do Estado (PCE), em Cuiabá.
Em dezembro daquele ano, dois advogados compareceram a uma unidade judicial na capital mato-grossense para solicitar providências relacionadas a uma suposta decisão assinada por um magistrado no mês anterior.
Os profissionais apresentaram uma cópia do documento, posteriormente encaminhada ao contato institucional do gabinete.
Durante a verificação, servidores constataram que a decisão não havia sido proferida pelo juiz responsável e não constava dos registros do processo.
A análise também identificou um código de validação pertencente a outro procedimento judicial, diferenças em relação aos documentos oficiais do sistema eletrônico de execução penal e indícios de edição externa do arquivo.
Advogado nega saber que documento era falso
Os três profissionais investigados são Felipe Augusto Dorileo de Rezende, Gerson Tomé Trevisol e Pabline Mayara Barbosa Belfort Medeiros.
Após a operação, Felipe Dorileo divulgou um vídeo em que apresentou sua versão dos acontecimentos.
Segundo o advogado, o documento foi encaminhado por uma colega no fim de 2025. Ele afirmou que não atua na área criminal e que compareceu ao fórum com Gerson Trevisol para obter informações sobre a suposta decisão.
Dorileo sustentou que, depois de serem informados de que o documento não constava do processo, os profissionais procuraram esclarecer sua origem.
“Se eu soubesse que isso se tratava de um documento falso, eu apresentaria?”, declarou.
O advogado também afirmou que ele e o colega registraram um boletim de ocorrência em 29 de abril e que, em 4 de maio, apresentou uma representação solicitando a investigação da origem do arquivo.
Ainda segundo Dorileo, os dois ofereceram voluntariamente celulares e notebooks às autoridades e se colocaram à disposição para prestar depoimento.
Ele relatou que, após o cumprimento de um mandado de busca em sua residência, compareceu espontaneamente à Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO) para conversar com o delegado responsável e reiterar sua disposição de colaborar.
O que a Polícia Civil investiga?
De acordo com a Polícia Civil, os elementos reunidos até o momento indicam que uma das advogadas investigadas teria participado da elaboração ou alteração do documento.
Os outros dois profissionais são suspeitos de apresentar e utilizar o arquivo perante o Poder Judiciário.
A Operação Reescrita cumpriu quatro mandados de busca e apreensão em Cuiabá, sendo três em residências e um em escritório de advocacia.
As equipes buscaram celulares, computadores, notebooks, documentos e outras mídias que possam contribuir para esclarecer a origem do arquivo, sua circulação e a participação individual dos investigados.
Os crimes sob investigação são falsificação de documento público, uso de documento falso e integração em organização criminosa.
As diligências foram acompanhadas por representantes da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Mato Grosso (OAB-MT). A entidade informou que o caso será avaliado pelo Tribunal de Ética e Disciplina.
Por que a operação recebeu o nome de Reescrita?
Segundo a Polícia Civil, o nome faz referência à suspeita de que uma decisão judicial já existente, relacionada à permanência do preso na penitenciária federal, tenha sido utilizada como base para produzir um novo documento.
O arquivo teria sido alterado para atribuir outro sentido à decisão original, simulando uma autorização posterior que permitiria antecipar a transferência de Miro Louco para Mato Grosso.

