Aos 40 anos, veterano cabo-verdiano brilhou contra a Espanha, emocionou o mundo e viu sua história de perseverança ganhar projeção internacional
Quando o árbitro encerrou a partida entre Cabo Verde e Espanha, no Estádio de Atlanta, em 15 de junho, as lágrimas do goleiro Vozinha resumiam um momento que entrou para a história do futebol. Estreante em Copas do Mundo, a pequena nação africana arrancou um empate sem gols diante da atual campeã da Europa e uma das favoritas ao título, graças principalmente à atuação inspirada de seu camisa 1.
Eleito o melhor jogador da partida, Josimar José Évora Dias, conhecido como Vozinha, foi o grande responsável pelo heroico 0 a 0. Aos 40 anos, o goleiro realizou sete defesas decisivas e ajudou Cabo Verde a conquistar um dos resultados mais emblemáticos desta Copa do Mundo de 2026.
Mas o choro que tomou conta do veterano após o apito final tinha um significado ainda mais profundo.
“Fui criado pelos meus avós e eles já não estão aqui. Chorei também pela minha mãe, que não conseguiu vir por causa dos problemas com o visto”, revelou o jogador após a partida.
Sonho realizado aos 40 anos
Vozinha se tornou o jogador mais velho de uma seleção estreante em Mundiais. Sua trajetória, porém, esteve longe de ser simples.
Nascido em Cabo Verde, arquipélago localizado a cerca de 600 quilômetros da costa africana, ele chegou a ser preterido nos primeiros anos da carreira por causa da baixa estatura.
“Eu era um dos melhores goleiros da ilha, mas diziam que eu era baixinho”, recordou.
Em busca de oportunidades, mudou-se para Portugal e construiu uma carreira que passou por Angola, Eslováquia, Moldávia e Chipre. Atualmente, defende o Chaves, da segunda divisão portuguesa.
Curiosamente, sua ligação com o futebol começou ainda no nascimento. O pai desejava batizá-lo em homenagem ao argentino Jorge Valdano, campeão mundial em 1986, mas as autoridades cabo-verdianas não permitiram. Acabou recebendo o nome Josimar, em referência ao lateral brasileiro que disputou aquela Copa pela Seleção Brasileira.
Uma seleção unida
Para Vozinha, a principal força da equipe cabo-verdiana é a união.
“Todos pensavam que viríamos apenas para passear no Mundial. Mas estamos aqui para competir e lutar pelo nosso país”, afirmou.
Com pouco mais de meio milhão de habitantes — população semelhante à de Florianópolis — Cabo Verde é o terceiro menor país a disputar uma Copa do Mundo. Ainda assim, a equipe mostrou personalidade diante dos espanhóis e conquistou torcedores muito além de suas fronteiras.
Nas arquibancadas, milhares de cabo-verdianos transformaram Atlanta em uma festa azul, vermelha e branca, enquanto espectadores de outras nacionalidades se deixavam contagiar pela emoção dos estreantes.
Mãe consegue visto e irá reencontrar o filho
A emoção de Vozinha ganhou um novo capítulo após a partida. Sua mãe, Ana Cândida Évora, conseguiu obter o visto de entrada nos Estados Unidos e confirmou presença no jogo contra o Uruguai, em Miami.
“Estou muito feliz. Vou ver meu filho jogar na Copa do Mundo. Quero dar um abraço nele depois da partida”, disse ela à BBC.
O reencontro tem um significado especial. Antes do duelo com a Espanha, o goleiro lamentou a ausência da mãe devido aos custos e dificuldades do processo de obtenção do visto.
Fenômeno nas redes sociais
O desempenho contra a Espanha transformou Vozinha em uma celebridade instantânea. O goleiro, que possuía cerca de 50 mil seguidores nas redes sociais, viu esse número disparar para milhões em poucos dias, impulsionado principalmente pelo público brasileiro.
Sua atuação também recebeu elogios da imprensa internacional. O ex-atacante escocês Pat Nevin, comentarista da BBC, classificou a exibição do goleiro como “absolutamente brilhante”. Já Lee Dixon, da ITV, afirmou que “a noite pertence a Cabo Verde”.
Mais do que um empate histórico, o que se viu em Atlanta foi o triunfo da perseverança. Quarenta anos após nascer com o nome inspirado em um jogador brasileiro, Vozinha escreveu sua própria história e transformou uma pequena nação africana em uma das maiores sensações da Copa do Mundo de 2026.
