A comunidade não acreditava na escola e a escola mal acreditava em si mesma. Em 2025, mais de 10 anos depois, a unidade venceu o prêmio de melhor escola do mundo na categoria “Superação de adversidades”, concedido pela organização britânica T4 Education entre mais de 10 mil escolas de 100 países.
E então, em fevereiro deste ano, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) lançou a “Rede Escolas dos Sonhos” para replicar o método da unidade escolar de Cubatão em 100 unidades da rede estadual paulista.
A escola Parque dos Sonhos está localizada no bairro Jardim Real, uma comunidade que nasceu com dificuldades. Construída para receber famílias removidas de áreas de risco da Serra do Mar, a região reuniu no mesmo território comunidades que não se conheciam e que trouxeram consigo seus próprios conflitos.
A equação somava na localidade entre 14 mil e 16 mil famílias, um único posto de saúde e presença do crime organizado. Era um local esquecido pelo Estado — e a escola, erguida no fundo do bairro, encostada na mata, sentia isso todos os dias. Sem vigilante, sem caseiro, era invadida com frequência. Roubaram ventiladores, computadores, a porta da caixa d’água, blocos de construção.
Hoje, o mesmo prédio abriga 1,2 mil alunos, tem lista de espera para matrículas e oferece mais de 50 projetos esportivos e culturais — de patinação artística a podcast, de teatro a vôlei.
Para o diretor da escola, Regis Marques, esses projetos não são extracurriculares, e sim estratégicos. “O crime reconhece o jovem, dá empoderamento pra ele. Quando ele pega uma arma, ele se sente forte. A gente monta 50 projetos aqui para que ele se sinta empoderado com uma bola de vôlei, com patins, com câmera”, disse à Gazeta do Povo.
A professora Helena dos Santos Hora chegou à escola em 2017 com dois patins de plástico comprados do próprio bolso. Não sabia patinar, mas tinha a convicção de que precisava de algo que prendesse os alunos.
“Eram 20 crianças brigando para usar aqueles patins”, relembra ela. Ao longo de nove anos, a professora investiu cerca de R$ 20 mil do próprio salário no projeto antes de conseguir emendas parlamentares e uma parceria com uma distribuidora de petróleo da região. Hoje Helena coordena uma equipe de competição com alunos que integram a seleção brasileira — entre eles Rafael dos Santos, que se tornou campeão mundial de patinação artística aos 11 anos após ser revelado pelo projeto.
Quem chegou depois, trazendo o vôlei, foi a professora Roseli dos Santos Nascimento, conhecida como professora Pio. No ano passado, a equipe mirim foi campeã estadual dos Jogos Escolares do Estado de São Paulo. “Quando você vai à casa do aluno, você entende por que ele age de uma determinada forma. Muda tudo”, diz ela.
Os números da transformação são concretos. A evasão, que era alarmante em 2016, caiu a quase zero. As ocorrências disciplinares reduziram em 80% e as matrículas cresceram mais de 400%, de acordo com o diretor. Há alunos que chegam às 7h, treinam à tarde e voltam à noite — e que, segundo Marques, pedem para dormir na escola.
Nenhum diretor queria a escola e Regis Marques Ribeiro, professor de história com 33 anos na época, aceitou o convite depois de hesitar — e passou o primeiro ano percorrendo diariamente 80 quilômetros de moto entre São Paulo e Cubatão.
A moto quebrava com uma regularidade que ele descreve como providencial. “Minha moto só quebrava na hora de ir embora, nunca na hora de vir pra escola”, diz ele. No segundo dia de trabalho como diretor, a sala dele foi apedrejada.
A primeira decisão prioritária foi simples: escutar. Marques começou a almoçar com os alunos, perguntava o que eles precisavam e as respostas viraram ações.
Em paralelo, escreveu 135 cartas para empresas pedindo parcerias, pagou o correio com o próprio salário e esperou. Em junho de 2016, o Itaú Social respondeu: R$ 100 mil para reformar e pintar a unidade. “Deu uma virada de chave nas pessoas, que começaram a botar fé no que eu falava. Porque eu cheguei aqui e ouvia: o que esse menino quer? Vai ficar seis meses e vai embora”, conta Marques.
Transformar o diretor em um ator ativo que vai atrás de parcerias é um dos pilares do método — a iniciativa privada entra onde o Estado não chega. Outro eixo central da proposta é o projeto “Escola vai à sua casa”, em que professores visitam as famílias dos alunos que registram mais faltas ou mais ocorrências de indisciplina — uma prática que Marques conheceu em 2003, numa palestra de educadores cubanos.
Quando o projeto estreou em 2016, com 13 professores, a maioria chorou durante as visitas. “Tinha casa que não tinha sofá, não tinha geladeira”, disse. A escola conta hoje com mais de 10 patrocinadores entre empresas, institutos e vereadores.
Um levantamento feito pela Gazeta do Povo com base em dados do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp) e do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), do governo federal, mostra avanços consistentes ao longo de uma década na escola de Cubatão.
No Saresp, avaliação aplicada anualmente pela rede estadual, a proficiência média dos alunos do 9º ano em língua portuguesa saiu de 225,5 pontos em 2015 para 250,9 em 2025. Em matemática, de 256,2 para 284,5 — o melhor resultado da série histórica em ambas as disciplinas. Nos anos iniciais, o 5º ano também avançou: de 184 para 205,9 pontos em língua portuguesa e de 217,1 para 226,6 em matemática entre 2017 e 2025.
O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), nacional, dos anos finais foi de 3,8 em 2013 para 5,6 em 2023, superando a meta do Inep para a escola naquele ano. O índice combina proficiência com taxa de aprovação — e a redução da evasão também contribuiu para o resultado.
O programa é coordenado pelo “Conviva — Diretoria de Clima, Convivência e Proteção Escolar” da Seduc-SP, criada em 2025 na reestruturação administrativa do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos). As 100 escolas que terão o método da escola de Cubatão replicados foram selecionadas por:
A prioridade é para unidades de ensino integral com perfil semelhante ao da Parque dos Sonhos em 2016: alta evasão, violência frequente e baixo aprendizado.
“O que a gente faz é acompanhar, orientar e dar suporte. Não é replicar a patinação de Cubatão, mas sim os pilares: não violência, projetos culturais e esportivos e pedagogia da presença”, explicou Daniele Quirino, diretora do Conviva.
As formações e visitas às unidades foram absorvidas dentro da estrutura existente da Seduc-SP, sem orçamento adicional.
Marques quer ir além. Pelo Instituto da Não-Violência, que ele fundou, articula uma rede internacional com escolas no Uruguai, Argentina, Venezuela e em estados brasileiros como Rio de Janeiro, Pernambuco e Rio Grande do Sul.
Na apostila distribuída em fevereiro para as cem escolas selecionadas pela Seduc-SP, Marques lista suas influências. Os nomes vão de Paulo Freire a Nelson Mandela — referências do pensamento humanista e progressista que moldaram gerações de educadores.
Gramsci, filósofo e político marxista italiano, aparece de forma mais lateral. “Quando a gente vai conversar sobre política, trago o que é política como relação, como conversa, como argumentação. Nesse sentido o Gramsci aparece”, explica Marques.
Entre os ícones grafitados nas portas das salas de aula estão Gandhi, Mandela, Malala Yousafzai, Marielle Franco, Pepe Mujica e Paulo Freire. Marques é filiado ao PT e se descreve como seguidor do movimento humanista.
Críticos de Freire — entre acadêmicos e intelectuais de direita — argumentam que sua pedagogia prioriza a conscientização política em detrimento do ensino de conteúdos mensuráveis como português e matemática. De acordo com dados do Saeb (avaliação federal independente) compilados pela plataforma QEdu, 84% dos alunos do 9º ano ainda não atingem o nível esperado em matemática — um número que o prêmio internacional não apaga.
Ao mesmo tempo em que busca verificar resultados de replicar o método da Parque dos Sonhos estado afora, o governo Tarcísio de Freitas amplia o programa de escolas cívico-militares — um modelo baseado em disciplina, hierarquia e autoridade, o que propicia opções de educação às famílias.
Fonte: Gazeta do Povo

