Como fica a corrida presidencial após a saída de Tarcísio, Ratinho Jr. e Eduardo Leite do páreo

8 Min Read

A última peça que caiu era considerada a principal representante da terceira via: o governador gaúcho Eduardo Leite perdeu a concorrência interna no PSD para o presidenciável Ronaldo Caiado, ex-governador do estado de Goiás, que por sua vez encampa bandeiras como a segurança pública linha-dura e a defesa do agronegócio.

Ex-tucano, Leite poderia ocupar a raia central da corrida eleitoral deste ano, com uma candidatura alternativa e crítica à polarização entre a esquerda e a direita, assim como Marina Silva e Ciro Gomes, que naufragaram nos últimos pleitos presidenciais. Sem Leite na disputa, a possibilidade de uma terceira via foi sepultada nas eleições de 2026.

Por outro lado, Caiado tem um perfil histórico de ligação à direita desde a disputa presidencial de 1989, quando lançou a candidatura pelo então homônimo PSD após se destacar nacionalmente como líder da União Democrática Ruralista (UDR).

Após 37 anos, Caiado abriu o discurso do lançamento da pré-candidatura com um forte aceno à direita ao prometer anistia “ampla, geral e irrestrita” aos condenados pelos atos cometidos em Brasília em 8 de janeiro de 2023 e ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado pela tentativa de golpe de Estado. Apesar disso, o goiano criticou a polarização política no país e procurou se colocar como um gestor mais experiente com o objetivo de se diferenciar do pré-candidato do PL, Flávio Bolsonaro.

A socióloga e professora de teoria política Marize Schons reitera que o PSD optou pela direita ao escolher Caiado, apesar do posicionamento do presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab. Historicamente, ele coloca o partido no centro do espectro político desde a fundação da legenda.

“A escolha tem um efeito na geometria eleitoral. Flávio Bolsonaro vai precisar construir uma imagem de moderação, enquanto Caiado tem espaço para explorar um discurso mais à direita”, opina.

O filho “01” do ex-presidente da República foi o principal responsável por mudar o eixo eleitoral para 2026. Ao lançar a pré-candidatura com a chancela do pai, Flávio praticamente liquidou o plano presidencial do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Além disso, ganhou o apoio de Tarcísio no maior colégio eleitoral do país, onde o governador irá disputar a reeleição estadual.

Apesar do entusiasmo dos caciques políticos, entre eles Kassab, a construção da frente ampla de centro-direita em torno do governador paulista, com sinalização de apoio do mercado financeiro, naufragou por causa do alinhamento político entre Tarcísio e a família Bolsonaro. 

“A margem de manobra ficou restrita no momento em que o Bolsonaro declarou apoio público ao Flávio. Por mais que seja um nome de grande força política, colocar-se em rota de colisão com a família Bolsonaro representaria um custo que, provavelmente, foi considerado alto demais”, avalia Schons.

O segundo nome que agradava tanto ao Centrão quanto ao mercado financeiro era Ratinho Junior (PSD). Mas o imbróglio na escolha do nome para disputar a sucessão estadual pelo grupo político no Paraná pesou na desistência, que teria envolvido outros fatores.

Ao levar o senador Sergio Moro para o PL e viabilizar a pré-candidatura ao governo paranaense do ex-juiz da Lava Jato, a campanha de Flávio Bolsonaro forçou Ratinho Junior a priorizar a disputa local e tirou o governador do tabuleiro presidencial. Para a socióloga, o cálculo do paranaense é que a entrega do campo eleitoral que ele construiu ao longo dos anos no estado, durante dois mandatos, tem um peso político maior do que se expor na corrida à Presidência.

“Partidos como o PSD não sãode massa, sequer partidos de quadros com enraizamento popular. São partidos que, na ciência política, são chamados de office seeking, ou seja, cuja sobrevivência depende da manutenção de prefeituras, governos estaduais e principalmente cargos”, explica Schons.

Com a saída dos três governadores do páreo, cinco pré-candidatos estão consolidados no espectro da direita em oposição à continuidade da atual gestão petista. Por outro lado, apenas Lula aparece na esquerda, com vácuo no posicionamento de candidatos como representantes de centro.

O pesquisador em Comunicação e Política Luiz Signates avalia que a disputa entre as candidaturas da direita para assumir protagonismo na oposição contra Lula, no primeiro turno, vai depender da viabilidade eleitoral de cada nome no decorrer da campanha. Ou seja, para atrair as siglas da centro-direita, o novo pré-candidato do PSD terá que mostrar força para bater Lula.

“Para se ter força de gravidade a ponto de atrair o Centrão, penso que será preciso que ele [Caiado] cresça a ponto de arriscar fortemente o favoritismo de Flávio Bolsonaro. Caso isso não aconteça, a eleição tenderá a polarizar-se em torno das duas pré-candidaturas já postas”, comenta Signates. 

Na opinião do pesquisador, Zema pode ser o próximo pré-candidato a deixar a corrida eleitoral, até as convenções partidárias. O governador mineiro é cobiçado tanto por Flávio quanto pelo PSD para ocupar a vaga de candidato a vice-presidente.

“Ele tem o mesmo problema de desconhecimento [nacional] de Caiado, sem ter o mesmo perfil de trajetória política e imagem moralista consolidada. Caso ele se candidate, contribuirá para dividir o eleitorado, mas não creio que isso ocorra a ponto de quebrar a tendência de polarização”, acrescenta Signates.

Por esse motivo, o pesquisador aposta que a coalizão à direita contra Lula deve ser concretizada no segundo turno, mas ressalta que o presidente petista também trabalha para atrair o Centrão. “Lula sabe, desde as eleições anteriores, que ninguém se elege no Brasil sem forte apoio da centro-direita, hoje representada pelo seu vice, Geraldo Alckmin (PSB). O poder atrativo da estrutura estatal não é desprezível e, certamente, boa parte do Centrão irá com ele, relativizando a força da direita para fazer o presidente”, pondera.

Na mesma linha, a socióloga Marize Schons lembra que a lógica política privilegia a capacidade de articulação partidária dos nomes cotados para a disputa eleitoral. “Há uma tendência de tratar a escolha de um candidato como se fosse uma seleção por mérito, como se o mais competente ou o melhor gestor fosse naturalmente o escolhido. A lógica eleitoral funciona de outra forma. O que determina a viabilidade de um nome é sua capacidade de aglutinar grupos diferentes ao redor de uma candidatura”, ressalta.

Fonte: Gazeta do Povo

Share This Article
Sair da versão mobile