Esse movimento nacional ajuda a explicar por que pequenas cidades brasileiras têm conseguido transformar o turismo em eixo central de desenvolvimento. Municípios com menos de 100 mil habitantes passaram a movimentar bilhões de reais por ano ao estruturar cadeias produtivas ligadas ao lazer, à cultura, à gastronomia, à hotelaria e aos serviços.
Gramado (RS), Caldas Novas (GO) e Holambra (SP) são exemplos disso. Com vocações locais distintas, essas cidades brasileiras podem ser convertidas em modelos consolidados de turismo, com impacto direto na geração de empregos e na dinamização da economia regional.
No recorte de dezembro de 2025, o turismo foi responsável por mais de 226 mil admissões em todo o país. Conforme o Ministério do Turismo, foi o segundo melhor resultado mensal do ano, atrás apenas de abril, quando foram registradas 284 mil contratações formais.
Na análise por segmentos, o setor de alimentação liderou as admissões, com 1.331.818 contratos firmados ao longo do ano. Na sequência, aparecem os segmentos de alojamento (268.346) e transporte terrestre (120.183). Com esse desempenho, o estoque total de trabalhadores formais no turismo chegou a 2.391.889 profissionais no último mês de 2025.
O número equivale a quase 5% de todos os empregos formais do país. Além disso, representa crescimento de 3,5% em relação ao fim de 2024, de 6,7% na comparação com 2023 e de 12,4% frente a 2022.
Com 40.134 habitantes, segundo o Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade de Gramado, na serra gaúcha, consolidou-se como um dos destinos turísticos mais reconhecidos do país ao transformar o turismo em política estruturante de desenvolvimento.
A identidade turística da cidade foi construída ao longo de décadas, combinando planejamento público, empreendedorismo privado e engajamento comunitário. Diferentemente de destinos que cresceram de forma espontânea, Gramado estruturou uma narrativa baseada na herança europeia, no cuidado urbano, na arquitetura padronizada, no paisagismo e na hospitalidade como ativo central.
De acordo com o secretário do Turismo de Gramado, Ricardo Bertolucci Reginato, essa construção foi aprofundada com o novo posicionamento institucional “Gramado, feita de histórias”. A proposta foca em pessoas, empreendedores e a comunidade como protagonistas do destino.
Os diferenciais da cidade aparecem tanto no aspecto simbólico quanto na percepção do visitante. De acordo com a Pesquisa de Perfil do Turista de 2026, do Observatório do Turismo de Gramado, atributos como segurança, organização urbana, limpeza, qualidade da gastronomia, hospitalidade e estética estão entre os mais bem avaliados.
A pesquisa também aponta que mais de 60% dos visitantes retornam ao destino, indicando alto grau de fidelização. Gramado oferece mais de 200 meios de hospedagem e mais de 300 empreendimentos gastronômicos.
Além disso, conta com comércio varejista diversificado, parques temáticos, atrações privadas e grandes eventos. “O destaque não está na predominância de um único segmento, mas no funcionamento articulado de toda a cadeia turística”, afirma o secretário municipal de Turismo.
Eventos como o “Natal Luz” e a “ChocoPáscoa” desempenham papel estratégico ao transformar a cidade de Gramado em uma experiência imersiva, envolvendo ruas, praças e moradores. Um calendário permanente de atrações ajuda a reduzir a sazonalidade e propicia fluxo constante ao longo das quatro estações, embora julho (inverno) e dezembro (verão) concentrem picos tradicionais de visitação.
Gramado recebe em média 360 mil visitantes únicos por mês, segundo o Observatório do Turismo. Ao longo do ano, o fluxo ultrapassa a casa dos milhões de visitantes, consolidando o município como um dos principais polos turísticos do Brasil.
O monitoramento também aponta elevada permanência média — com recorde de seis pernoites por visitante em outubro de 2025 — fator que amplia o consumo distribuído entre hospedagem, alimentação, comércio e entretenimento.
O impacto econômico é direto. Cerca de 86% da economia local está associada, de forma direta ou indireta, ao turismo em Gramado. O município registra mais de 10 mil empregos formais ligados a atividades turísticas, com destaque para hospedagem, alimentação, comércio varejista e agenciamento.
Somente os setores de hospedagem, alimentação e comércio concentram, em média, cerca de 3,2 mil empregos formais mensais, segundo dados de 2026 do Observatório do Turismo.
De acordo com o secretário do Turismo local, a arrecadação do Imposto Sobre Serviços (ISS) reflete essa dinâmica. Ele explica que após a retração registrada em 2020, houve recuperação acelerada em 2021.
Três anos depois, uma nova queda foi registrada em razão da catástrofe climática no Rio Grande do Sul, mas o município voltou a apresentar trajetória de crescimento, evidenciando capacidade de gestão e resiliência diante de crises. “Como o turismo responde por cerca de 86% da base econômica local, o orçamento municipal é influenciado de forma transversal pela atividade”, afirma Reginato.
Com 98.622 habitantes, segundo o Censo Demográfico do IBGE, Caldas Novas, em Goiás, estruturou sua economia a partir do turismo de águas termais, principal atrativo do município. De acordo com a secretária de Turismo e Eventos, Danilla Soares Gonçalves, embora as águas sejam o elemento central, a cidade reúne outros atrativos que reforçam sua posição entre os destinos mais procurados do país.
Além das fontes termais, o município conta com o Lago Corumbá, o Parque Estadual da Serra de Caldas e uma ampla rede de empreendimentos turísticos, com destaque para grandes parques aquáticos. “Caldas Novas é o terceiro município do Brasil em número de leitos hoteleiros, com quase 80 mil leitos”, afirma.
O perfil dos turistas varia ao longo do ano. Em períodos de férias escolares e feriados prolongados, predomina o turismo familiar. Em meses como agosto, setembro e outubro, o município recebe principalmente visitantes da terceira idade. Em datas específicas, como carnaval, Semana Santa e eventos como o “Caldas Country”, há forte presença de jovens.
De acordo com a secretária municipal, diversos fatores contribuem para a escolha do destino, mas as águas termais e os parques aquáticos têm papel decisivo. O turismo movimenta, em média, cerca de R$ 3 bilhões por ano e sustenta direta ou indiretamente a maior parte da economia local.
Após a descoberta das águas termais, o interesse por novos empreendimentos impulsionou o crescimento da cidade e consolidou Caldas Novas como a maior estância hidrotermal do mundo. Turismo e mercado imobiliário se retroalimentam, fortalecendo a dinâmica econômica do município.
Dados do Sistema Nacional de Emprego (Sine) de 2025 indicam aumento de quase 16% nos empregos diretos e indiretos ligados ao setor. Entre os principais atrativos da cidade estão o diRoma Acqua Park, o Lagoa Termas Parque, o Náutico Praia Clube, o Jardim Japonês e a Praça Mestre Orlando, um dos pontos tradicionais de convivência e comércio de Caldas Novas.
Com cerca de 16 mil habitantes, Holambra construiu sua vocação turística a partir da herança da imigração holandesa e da produção de flores, que se tornou marca registrada do município. Única estância turística da Região Metropolitana de Campinas, a cidade ostenta o título de “capital nacional das flores” e está localizada a cerca de 30 quilômetros de Campinas, em São Paulo.
De acordo com dados do Departamento Municipal de Finanças e Contabilidade de Holambra, o turismo representa 15,1% do Produto Interno Bruto (PIB) do município. O setor movimenta R$ 217,8 milhões por ano, conforme dados do Departamento Municipal de Finanças e Contabilidade de Holambra.
A influência holandesa está presente na arquitetura, na gastronomia e nos atrativos turísticos, herança da imigração iniciada em 1948 na antiga Fazenda Ribeirão. Monumentos como o Moinho Povos Unidos, o Portal Turístico e o Museu Histórico da Imigração ajudam a contar a história da formação do município.
De acordo com informações da prefeitura, Holambra é responsável por cerca de 60% do mercado florista do país. A produção é distribuída em campos, estufas e centros de compras especializados.
As flores fazem parte da paisagem urbana e da experiência turística, inclusive por meio de passeios guiados pelos campos de produção ao longo do ano. O turismo na cidade não se concentra em uma única época.
Eventos como a Expoflora, o Dia do Rei e o Natal Mágico de Holambra atraem centenas de milhares de visitantes. Por ano são cerca de 1,5 milhão de turistas movimentando setores como comércio, gastronomia e serviços.
Entre os principais atrativos estão o Moinho Povos Unidos, o Museu Histórico da Imigração, o Boulevard Holandês, o Parque Van Gogh, o Deck do Amor, praças temáticas e parques de exposição permanente como o Bloemen Park e o Macena Flores.
Fonte: Gazeta do Povo
