EUA não levarão em conta opinião do Brasil sobre PCC terrorista, diz promotor consultado por Washington

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Segundo Gakiya, representantes do governo norte-americano têm interesse em compreender a estrutura e a atuação internacional do PCC, organização que ele investiga há duas décadas.

“Eles me disseram que estavam no Brasil para conhecer o funcionamento do PCC, para saber sobre a atuação internacional, e que não levariam em conta, pelo menos foi o que me foi dito, a opinião do governo brasileiro sobre os Estados Unidos classificarem ou não o PCC como organização terrorista por ser um ato interno, e não que diz respeito ao Brasil”, afirmou em entrevista à GloboNews na quarta (11).

O governo brasileiro tenta conter o avanço da discussão em Washington que propõe classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. A estratégia do Palácio do Planalto é adiar qualquer decisão até uma eventual reunião presencial entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente americano Donald Trump, prevista para ocorrer nos Estados Unidos até o final deste mês – mas, ainda sem uma data marcada por causa do avanço da guerra no Oriente Médio.

Em 2025, autoridades norte-americanas estiveram em Brasília e em São Paulo para coletar informações detalhadas sobre a atuação da facção. O objetivo foi avaliar os impactos da organização criminosa não apenas no Brasil, mas também em outros países onde o grupo mantém presença.

Gakiya deve voltar a se reunir com representantes do governo americano nesta semana para discutir o avanço das investigações. O encontro servirá como preparação para uma reunião mais ampla com agentes da DEA, do FBI e do Departamento de Estado dos EUA em Boston, ainda neste mês.

“O PCC é uma organização mafiosa, com atuação transnacional em mais de 28 países, pratica atos de natureza terrorista, como se viu em São Paulo nos ataques de 2006. Mas não tem objetivos políticos ou ideológicos”, afirmou.

Gakyia, que vive sob escolta policial há mais de dez anos por causa de sua atuação contra facções, reforçou que o PCC não possui motivação racial, religiosa ou ideológica que poderia justificar a classificação de terrorista. Ele também criticou o uso político que o tema vem sendo usado.

“O discurso político se apropriou desse tema. Então, parte da população, influenciada por uma corrente política, acha que classificar essas facções como terroristas vai nos auxiliar no endurecimento de penas ou na recuperação de ativos. Outros acham que vai haver uma intervenção dos Estados Unidos no Brasil para acabar com essas facções, o que, de fato, não é a realidade”, pontuou.

O promotor emendou afirmando que rotular o PCC como organização terrorista pode, inclusive, criar obstáculos burocráticos. Hoje, a troca de informações entre o Ministério Público brasileiro, o FBI e a DEA ocorre diretamente por meio de cooperação policial. Uma eventual alteração fará as informações serem classificadas como dados confidenciais sob responsabilidade da CIA, reduzindo o acesso direto de investigadores brasileiros.

Lincoln Gakiya também alertou para possíveis consequências econômicas e diplomáticas. Segundo ele, o Brasil poderia enfrentar sanções internacionais ou dificuldades de acesso a instituições financeiras multilaterais, como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento.

“Quando você classifica uma organização como terrorista, você autoriza o governo americano a executar ações militares fora do seu território”, afirmou acrescentando que essa decisão pode abrir espaço para pressões econômicas contra o país.

Na avaliação de Gakiya, a mudança de classificação não traria ganhos práticos para as investigações no Brasil. Para ele, não é a classificação do PCC ou do Comando Vermelho como organizações terroristas que vai auxiliar na melhora ou mais eficiência no combate ao crime organizado.

Fonte: Gazeta do Povo

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