Delegada diz que sociedade tem responsabilidade em combater violência contra a mulher

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A violência contra a mulher foi tema de palestra da delegada Patrícia Zimmermann d’Ávila, na tarde desta quarta-feira (11), em evento que fez parte da Semana de Protagonismo Feminino, no Plenarinho Paulo Stuart Wright.

Patrícia é coordenadora de 45 delegacias especializadas em Santa Catarina, a maioria dedicada ao atendimento de mulheres vítimas de violência. Ela defende que a sociedade tem responsabilidade de combater a violência contra a mulher. “Temos que enfrentar todas as formas de violência, seja física, psicológica, moral ou patrimonial. Se alguém conhece uma mulher que sofre violência, deve acolher essa mulher, pois o acolhimento faz toda a diferença. Jamais julgue essa mulher. E se você é vítima, procure ajuda, não espere, para não ser vítima de um crime mais grave. E se você é homem e tem conhecimento, esse problema também é seu”.

Denúncia não deve ser protelada
Em 28 anos de profissão, a delegada afirma que buscar ajuda é essencial, e essa decisão não pode ser protelada. “A maioria das vítimas de feminicídio não tinha uma única queixa contra o agressor”, ela alerta, lembrando que, em regra, o desfecho é resultante de uma espiral de violência que envolve um ciclo de agressões, reconciliações e a chamada “lua de mel”, em que a vítima e seu agressor vivem uma escalada até o desfecho fatal. “Muitos homens não tinham boletins de ocorrência feitos por suas agressoras, mas registros de relacionamentos anteriores”, conta.

O desfecho, a tragédia se revela em cenas de crimes que a experiente delegada costuma olhar com o que chama de “lente de gênero”. Patrícia diz que “a cena do crime fala” e revela violência extrema. “A mulher é assassinada com raiva, cinco ou seis facadas, até 23”.

Cultura da violência contra a mulher
Patrícia revela a cultura da violência e do estupro feminino como parte da história. Ela usou o exemplo do recente estupro coletivo de uma moça de 17 anos no Rio de Janeiro por quatro jovens, que em seguida à denúncia motivou a revelação de outros casos envolvendo os mesmos agressores. “Não é só lá que isso acontece”.

Ela afirma que as vítimas têm dificuldades em procurar ajuda, mas devem usar os canais disponíveis ou quem possa auxiliar. Boletins de ocorrência hoje podem ser feitos de forma virtual e são prioridades nas investigações quando envolvem mulheres sob ameaça. “Vamos até a vítima, mesmo que esteja escondida num buraco e vamos achá-la”, garante a delegada.

O telefone 181 do disque denúncia da Polícia Civil, o 190 da Polícia Militar ou o WhatsApp (48) 988440083 são alguns dos canais disponíveis. As delegacias especializadas, as chamadas DPCAMI, ou as delegacias da mulher também são alternativas físicas em cidades com mais de 50 mil habitantes, ou a delegacia mais próxima.

Quem registra e recebe medida protetiva pode ser atendida pela Rede Catarina de Proteção à Mulher, até ganhando a proteção em abrigos. Ou ter o acesso facilitado ao botão de pânico, acionado pelo celular, que chama com prioridade a atenção da viatura policial mais próxima.

Estatísticas alarmantes
A violência contra a mulher deve ser tema permanente de campanhas educativas na visão da delegada especializada. Os números falam por si, pois estatísticas globais revelam que 840 milhões de mulheres já sofreram violência física ou sexual – quase uma em cada três. E a cada dia, 137 mulheres são vítimas de feminicídio no mundo, quase uma a cada 10 minutos. Outro dado alarmante é que 16% das jovens entre 15 e 19 anos revelam ter sofrido violência física ou sexual no último ano. E uma em cada 10 mulheres na União Europeia já sofreu cyber assédio, ou seja, assédio por meios digitais.

O Brasil registrou 1518 feminicídios em 2025, quatro a cada dia. E 87.545 estupros, 196 ao dia.

Santa Catarina registrou 52 casos de feminicídios no ano passado, um por semana. A maioria, 71% , está na faixa entre 18 e 44 anos, quando é mais freqüente a mulher decidir-se pelo fim de um relacionamento tóxico. Oito em dez casos tem no assassino o companheiro, ou ex-companheiro. E 64% das vítimas são negras.

Violência se exprime de diferentes modos
O Observatório da Violência contra a Mulher da Alesc disponibiliza dados sobre os diversos casos de violência e podem ser pesquisados. Entre os casos também estão os de assédio por stalking, quando a mulher é perseguida por agressor obsessivo, ou mesmo de violência psicológica, que envolve ameaças, calúnia, difamação ou injúria.

A violência física pode se dar em empurrões, sacudir, jogar objetos, até mesmo um prato de comida contra a parede para dizer que não está satisfeito com a comida. Limitar o direito de ir e vir, obrigar a mulher ao isolamento, chantagear, explorar economicamente, rastrear o celular ou seu veículo, obstruir a liberdade de crença ou mesmo distorcer fatos e colocar em dúvida a sanidade mental da companheira são tipos de violência conhecidos nas delegacias especializadas.

Obrigar a mulher a praticar o ato sexual, mesmo em relações de casais estáveis também é violência e pode ser considerado estupro. Explorar a companheira, limitar ou anular seu direito sexual reprodutivo, controlar seu dinheiro, deixar de pagar pensão, destruir seus documentos ou causar danos a objetos pessoais, mesmo os de valor sentimental, também são formas de violência graves. “A mulher não pode se sujeitar a nenhuma violência”, reforça a delegada Patrícia.

Demonstração de defesa pessoal
Após a palestra da delegada, a plateia foi convidada a participar de uma demonstração sobre defesa pessoal para mulheres diante de situações de assédio. A prática foi organizada com as participações dos instrutores de artes marciais da Academia da Polícia Civil (Acadepol), Miguel Braga da Mota Júnior e Antônio Barbosa.

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Fonte: RUBENS CHAVES VARGAS

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