Dados preliminares divulgados por fontes tradicionais do mercado de TV no país mostram que na Grande São Paulo a estreia do “Na Mesa com Datena” — com o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin (PSB) — registrou média de 0,1 ponto de audiência. Isso representa menos de 20 mil telespectadores dentro de um universo de mais de 20 milhões de habitantes.
O resultado inicial do programa deixa dúvidas sobre a capacidade da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), responsável pela emissora pública, de transformar a chegada de um apresentador consagrado em canais comerciais em audiência efetiva. Conhecido por décadas de programas policiais populares, Datena estreou cercado de expectativa — mas, ao menos no primeiro dia, o público parece ter passado longe da atração exibida pela emissora estatal e custeada pelo dinheiro do contribuinte.
Datena assinou um contrato milionário com a EBC para comandar dois programas. Um é o Alô Alô Brasil, diário, na Rádio Nacional de São Paulo, que teve como convidado de estreia o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos. O outro é o semanal Na Mesa com Datena, que estreou com Alckmin.
Por ambos os trabalhos, o apresentador deve receber cerca de R$ 100 mil mensais, mais de um milhão de reais por ano. As cifras aparecem em uma representação aberta junto ao Ministério Público Federal (MPF) pelo deputado estadual Guto Zacarias (União-SP) e pelo coordenador nacional do Movimento Brasil Livre (MBL), Renato Battista.
Para os reclamantes, a EBC estaria furando o teto constitucional da remuneração no serviço público. Em 2026, esse teto é de R$ 46,3 mil, o equivalente ao salário de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
Em nota, a estatal mistura os cenários público e privado ao justificar que o salário é “compatível com o praticado no mercado por outras emissoras para profissionais da mesma relevância e, inclusive, é inferior ao que Datena recebia nas empresas em que trabalhou anteriormente”.
Oficialmente, a ida de Datena à EBC é apontada pela estatal como parte da estratégia de valorizar o jornalismo factual em seus veículos, além de fortalecer a comunicação pública como um espaço de informação confiável e acessível.
“No contexto em que vivemos, de intenso ruído informacional, o jornalismo é um ativo central. Precisamos fortalecê-lo para oferecer à população informação segura, contextualizada e com capacidade de gerar reflexão. Portanto, estamos reconhecendo o papel e a importância do jornalismo ao trazê-lo ainda mais para a grade da TV Brasil e da Rádio Nacional”, afirmou o presidente da EBC, André Basbaum.
Na prática, a contratação do apresentador — cuja carreira foi marcada por liderar programas policiais — é vista como uma tentativa de marcar presença na área da segurança pública. Datena seria, então, um contraponto da esquerda nessa área que é praticamente dominada pelo discurso da direita no Brasil.
O tema esteve presente na entrevista com Alckmin, que defendeu o combate ao crime organizado com foco na cúpula das organizações criminosas e a necessidade de leis mais pesadas sobre o feminicídio. O vice-presidente também trouxe dados sobre a redução nos homicídios no período em que governou o estado de São Paulo.
As investigações envolvendo o Banco Master também foram citadas por Datena e Alckmin. O vice-presidente afirmou que o governo federal dá plena liberdade para que Polícia Federal, Ministério Público e Poder Judiciário façam seu trabalho. O apresentador logo fez um aparte e citou as investigações sobre Lulinha na CPI do INSS para afirmar que nem mesmo o filho do presidente estaria sendo poupado.
Outros elogios ao presidente foram mais diretos, como quando Datena admite o crescimento da direita no Brasil para, logo em seguida, dizer que “o presidente Lula é um craque em disputar eleições”. Ou quando o apresentador, ao falar sobre o recuo do Planalto no aumento de impostos sobre eletrônicos, afirma que, com a redução da carga tributária e a aplicação correta do dinheiro público, “o brasileiro vai ter vontade de pagar imposto”.
Datena ainda tentou tirar de Alckmin alguma confirmação sobre uma possível candidatura ao Senado nas eleições de 2026, uma vez que o vice-presidente deixará o cargo de ministro dentro do período de desincompatibilização exigido pela lei eleitoral. O entrevistado, porém, não falou nada de si mesmo e aproveitou o tempo para tecer elogios a Fernando Haddad, possível candidato do PT na disputa pelo governo de São Paulo contra Tarcísio de Freitas (Republicanos), que busca a reeleição.
“Por que o Haddad é um grande nome? Ele foi prefeito de São Paulo, disputou a última eleição [ao governo] e foi para o 2º turno, é o ministro da Fazenda. Ele tem experiência e espírito público. Eu digo que o Haddad é o melhor candidato para tudo, não é só para governador”, disse Alckmin.
Ao fim da entrevista, entre causos antigos do tempo em que foi prefeito de Pindamonhangaba, no interior paulista, Alckmin recebeu uma enxada de Datena e deu dicas de como capinar um pasto, da forma como ele diz fazer quando viaja ao interior do estado. O vice-presidente reclamou da falta de amolação da ferramenta e disse que a capina é seu exercício físico favorito.
“Se a enxada estiver bem amolada, é uma tacada só para tirar a praga. Vai limpando e caminhando. Eu faço quatro, cinco horas disso, fico pingando [de suor]. Não tem academia melhor”, completou.
Fonte: Gazeta do Povo
